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Quando se fala em mercado de capitais, é comum pensar em grandes companhias, operações bilionárias e estruturas financeiras sofisticadas. Essa associação tem uma explicação: são essas operações que normalmente ganham maior destaque. Mas ela não representa toda a realidade do mercado.
Nos últimos anos, o mercado de capitais tem se tornado mais diversificado, tanto em relação aos instrumentos disponíveis quanto ao perfil dos emissores e ao porte das operações. Movimentos e tendências dos mercados brasileiro e norte-americano ajudam a desconstruir uma premissa ainda bastante difundida: o porte da empresa, isoladamente, não define sua possibilidade de acessar o mercado de capitais. Isso não significa que o mercado de capitais seja adequado a qualquer companhia, em qualquer momento. A questão relevante é outra: a empresa está preparada para avaliar essa alternativa?
Essa análise passa, em primeiro lugar, pelo próprio negócio. Companhias em trajetória de crescimento, com capacidade de geração de caixa e perspectivas razoavelmente previsíveis, podem encontrar no mercado de capitais uma alternativa para financiar expansão, investimentos, aquisições, capital de giro ou mesmo reorganizar sua estrutura de capital. Contudo, os fundamentos econômicos são apenas parte da equação.
Há ainda um elemento essencial:
Planejamento. A companhia deve compreender por que pretende captar, qual volume de recursos é compatível com sua necessidade e, especialmente nas operações de dívida, como o compromisso assumido se relaciona com sua geração de caixa e sua estratégia.Para empresas em processo de expansão ou amadurecimento, uma das principais vantagens do mercado de capitais é a possibilidade de diversificar as fontes de financiamento. A companhia deixa de depender exclusivamente do crédito bancário tradicional e passa a poder avaliar, conforme suas características e objetivos, outras formas de acessar recursos. Essa diversificação pode ampliar sua flexibilidade financeira e permitir estruturas mais aderentes às necessidades de determinado investimento ou etapa de crescimento. Entretanto, o acesso a novas fontes de recursos traz tanto oportunidades, quanto responsabilidades.
Investidores e demais participantes da operação precisam ter condições de avaliar os riscos assumidos. Isso exige qualidade das informações, transparência, documentação adequada, organização societária e financeira e capacidade de atender às obrigações de prestação de informações aplicáveis à estrutura escolhida. A companhia também precisa estar preparada para passar por processos de auditoria e para manter um relacionamento mais estruturado com investidores e demais agentes envolvidos.
Essa preparação possui, inclusive, uma dimensão econômica. Quanto mais organizada, transparente e previsível for a companhia, maior tende a ser a capacidade dos investidores de compreender e precificar seus riscos. Isso pode contribuir para condições mais adequadas em uma eventual captação, embora o resultado dependa de diversos outros fatores, inclusive condições de mercado, características do emissor e estrutura da operação.
Assim, a preparação que antecede a captação talvez esse seja o aspecto mais importante para empresas que ainda não acessam o mercado de capitais. Governança não se implementa de uma semana para outra. Um histórico consistente de demonstrações financeiras também leva tempo para ser construído, especialmente quando se pretende contar com informações auditadas e comparáveis. O mesmo ocorre com a regularização de livros e documentos societários, revisão de contratos relevantes, identificação de contingências e aperfeiçoamento de processos internos.
A preparação prévia tem uma finalidade mais ampla do que viabilizar uma operação específica. Ela cria opcionalidade estratégica. Uma empresa organizada pode avaliar com maior agilidade diferentes alternativas de financiamento quando surgir uma oportunidade de aquisição, um projeto de expansão ou uma necessidade de reorganização do passivo. Além disso, várias das medidas necessárias para uma futura captação são práticas que podem contribuir para a qualidade da gestão independentemente de a companhia efetivamente acessar o mercado.
Sendo assim, entende-se que o mercado de capitais não se trata mais de algo exclusivo para grandes empresas. O desenvolvimento recente do mercado mostra que operações de diferentes portes e perfis coexistem e que empresas em diferentes estágios de desenvolvimento podem encontrar nele uma alternativa relevante de financiamento. Isso não significa, porém, que o acesso seja automático ou que essa alternativa faça sentido para toda companhia. Mais do que uma questão de tamanho, trata-se de uma questão de maturidade, planejamento e preparação. O mercado de capitais pode fazer parte de suas alternativas de financiamento no futuro e começar a organizar governança, informações financeiras, estrutura societária, contratos e contingências antes que os recursos sejam necessários pode fazer uma diferença relevante.
A pergunta, portanto, talvez não seja apenas se a empresa é grande o suficiente para acessar o mercado de capitais. É se ela está se preparando para ter essa alternativa quando chegar o momento certo.