ECA Digital: consulta pública da ANPD sinaliza ampliação do alcance regulatório para empresas de tecnologia
Entenda o que está em jogo e por que o tema exige atenção estratégica
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A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu Tomada de Subsídios para discutir o Guia Orientativo sobre fornecedores de produtos ou serviços de tecnologia da informação no âmbito do ECA Digital.
Mais do que um movimento formal, trata-se de um passo relevante na consolidação prática da Lei nº 15.211/2025 – especialmente porque o Guia busca responder duas perguntas centrais:
- Quem está sujeito à lei
- Quais são, na prática, suas obrigações
A depender da interpretação adotada, o impacto pode ser significativamente mais amplo do que o esperado por muitas empresas.
O desafio regulatório
O próprio Relatório de Análise de Impacto Regulatório reconhece que a lei contém conceitos juridicamente indeterminados, o que pode gerar:
- Interpretações divergentes
- Insegurança jurídica
- Custos de conformidade assimétricos entre empresas
Esse cenário tende a produzir dois efeitos relevantes:
- Empresas mais conservadoras podem superdimensionar medidas de compliance
- Outras podem postergar adequações diante da incerteza
O Guia surge justamente para tentar reduzir esse risco, além de buscar consolidar entendimentos regulatórios.
Quem pode ser afetado
O ECA Digital adota uma abordagem funcional e tecnologicamente neutra.
Na prática, isso significa que o conceito de fornecedor inclui:
- Aplicações de internet
- Redes sociais
- Lojas de aplicativos
- Sistemas operacionais
- Serviços com controle editorial
- Jogos e outras soluções digitais
Ou seja, não se trata apenas de empresas voltadas ao público infantil.
O critério central é outro: o papel do serviço no ambiente digital e o risco que ele pode gerar para crianças e adolescentes.
Talvez o elemento mais estratégico da lei seja o conceito de “acesso provável”. Ele amplia o alcance do ECA Digital para serviços que:
- Não são direcionados a crianças
- Mas podem ser utilizados por elas
Esse modelo aproxima o Brasil de tendências internacionais baseadas em risco, reduzindo a possibilidade de exclusão formal do escopo regulatório.
O ECA Digital consolida uma mudança importante na regulação digital:
- Sai a lógica reativa (após o dano)
- Entra a lógica preventiva (antes do risco)
A lei impõe deveres estruturais aos fornecedores:
- Prevenção
- Proteção
- Informação
- Segurança
Além disso, reforça o conceito de “proteção por design”, exigindo que produtos já nasçam com configurações protetivas. Na prática, isso desloca a responsabilidade para as empresas – especialmente aquelas com maior capacidade técnica e econômica.
Embora o Guia ainda esteja em consulta, algumas implicações já podem ser antecipadas:
Empresas que não se consideravam no radar podem passar a estar.
Modelos de negócio baseados em dados, engajamento e interação tendem a demandar maior atenção.
Especialmente em temas como:
- Design de interface
- Mecanismos de engajamento
- Coleta e uso de dados
- Controle parental
A tendência é exigir processos contínuos, e não apenas ajustes pontuais.
A Tomada de Subsídios representa uma oportunidade relevante para empresas e associações contribuíram na construção da interpretação regulatória, na redução de ambiguidades e, além disso, ajudar na construção de um cenário com obrigações desproporcionais
Em ambientes com conceitos abertos, a fase de construção regulatória costuma ser decisiva. O movimento da ANPD indica que o ECA Digital caminha para uma aplicação concreta e abrangente.
A Tomada de Subsídios está aberta até 15 de junho de 2026, e as contribuições devem ser realizadas exclusivamente por meio da Plataforma Brasil Participativo. O prazo relativamente curto reforça a necessidade de mobilização tempestiva por parte das empresas impactadas.
Mais do que uma nova obrigação, trata-se de uma mudança de paradigma na regulação de serviços digitais, com foco em risco, design e responsabilidade estrutural.
Diante desse cenário, recomenda-se que empresas:
- Avaliem seu enquadramento potencial
- Revisem seus produtos sob a ótica de risco
- Acompanhem de perto a evolução regulatória
Cada modelo de negócio pode apresentar impactos específicos, o que reforça a importância de uma análise jurídica individualizada.
Nosso time acompanha de perto a evolução do ECA Digital e está à disposição para apoiar empresas na avaliação de impactos, definição de posicionamento e eventual participação na consulta pública.
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