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O maior risco do agro hoje não é apenas o clima. É a falta de previsibilidade para o seguro rural

07 jul. 2026 Brasil 6 min de leitura

Os eventos climáticos extremos continuam sendo um dos maiores desafios do agronegócio brasileiro com secas prolongadas, excesso de chuvas, ondas de calor e geadas intensas. Fenômenos como El Niño e La Niña passaram a fazer parte da rotina do produtor. Mas, hoje, existe um risco que preocupa tanto quanto o clima: a imprevisibilidade da política pública de seguro rural.

O debate sobre o futuro do agro não pode estar restrito ao volume de crédito disponível. O financiamento da produção continua sendo indispensável, mas ele representa apenas uma parte da equação. Em um cenário de riscos climáticos cada vez maiores, o país precisa fortalecer instrumentos capazes de garantir que o produtor consiga atravessar uma quebra de safra sem comprometer sua continuidade econômica.

É importante lembrar que crédito rural e seguro rural são políticas públicas distintas, embora complementares. Enquanto o crédito financia o plantio, os investimentos e a produção, a subvenção ao prêmio do seguro rural reduz o custo da apólice, tornando a proteção acessível para um número maior de produtores. Um instrumento não substitui o outro.

O desafio se torna ainda maior porque o agro brasileiro demanda cerca de R$ 1,2 trilhão por ano em financiamento e o novo Plano Safra, considerando-se Agricultura Empresarial e Familiar, representa apenas 50% desse volume. O crédito oficial, por sua vez, que é aplicado especialmente na equalização de juros, representa uma porção bem pequena do todo e cuja relevância vem, gradativamente, diminuindo ao longo dos anos. A maior parte dos recursos vem do mercado privado, incluindo mercado de capitais e financiadores internacionais. Essa é uma tendência natural, mas como custo de linhas de crédito privadas tende a acompanhar o mercado, em um momento em que os produtores convivem com margens operacionais menores, o patamar atual de juros básicos no Brasil faz com que a despesa financeira decorrente desses financiamentos tenha um peso muito significativo no resultado da atividade. E isso tudo aliado a maior severidade de eventos climáticos nos últimos anos.

Nesse contexto, o seguro rural deixa de ser apenas uma indenização em caso de perdas e passa a funcionar como uma verdadeira infraestrutura financeira do agronegócio.

O produtor pode investir em irrigação, genética, máquinas, manejo, tecnologia e planejamento. Tudo isso reduz riscos e aumenta a produtividade. No entanto, nenhuma dessas medidas elimina completamente os impactos do clima. Uma irrigação eficiente, por exemplo, pode evitar a perda total da lavoura, mas não garante produtividade plena diante de um veranico prolongado, de temperaturas extremas ou de estresse hídrico durante fases críticas do desenvolvimento da cultura. O resultado pode ser uma safra colhida, porém economicamente insuficiente para garantir boas margens.

Por isso, preocupa a instabilidade dos recursos destinados à subvenção. Sem previsibilidade orçamentária, o seguro tende a ficar mais caro. E, quando o custo aumenta, muitos produtores deixam de contratar a cobertura ou reduzem o nível de proteção, assumindo integralmente um risco que pode comprometer toda a atividade.

 

Atualmente, apenas cerca de 3,3 milhões de hectares contam com cobertura de seguro rural, representando menos de 4% da área cultivada no país. A título de comparação, em 2021 a área total coberta por seguros atingiu 13,4 milhões de hectares protegidos.

Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais intensas – e com previsões de um El Niño muito intenso neste ano, essa vulnerabilidade tende a crescer.

Na terça-feira (9/6), o Ministério da Agricultura bloqueou R$ 461,6 milhões do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), cuja verba inicial prevista era de R$ 1,1bi. Considerando-se que R$ 100 milhões já foram aplicados em apólices para culturas de inverno, o volume disponível para o programa neste ano passou foi reduzido para R$ 530,1 milhões.

Os efeitos das restrições orçamentárias aparecem diretamente nos indicadores do programa. Em 2021, o seguro rural subvencionado alcançou o recorde de 217,9 mil apólices contratadas ao passo que, em 2025, o total foi de 61,6 mil apólices.

Essa redução da cobertura não decorre apenas do aumento da incidência de fenômenos climáticos ou do custo das apólices. A instabilidade orçamentária do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) também contribui para esse cenário. 

Um estudo do FGV Agro estima que, apenas para elevar a subvenção destinada às lavouras de soja de 20% para 30%, o orçamento anual do PSR precisaria alcançar R$ 2,57 bilhões. Segundo os autores, a previsibilidade orçamentária constitui condição essencial para o funcionamento do mercado segurador, permitindo o planejamento de produtores, seguradoras, resseguradoras, cooperativas, instituições financeiras e governo. Nesse contexto, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 2.951/2024, que busca impedir bloqueios, cortes e contingenciamentos dos recursos destinados ao programa.

Os impactos também ultrapassam a relação entre seguradora e produtor. Hoje, muitas instituições financeiras consideram a existência de seguro um elemento importante na análise de risco das operações de crédito. Quando o produtor não consegue contratar uma apólice, aumenta a percepção de risco do financiamento, podendo haver exigência de garantias adicionais, condições financeiras menos favoráveis ou até restrição ao acesso ao crédito.

Forma-se, então, um ciclo preocupante. Sem seguro, o produtor fica mais exposto às perdas climáticas. Mais exposto, encontra maior dificuldade para acessar financiamento. Com menos crédito, reduz investimentos em insumos, tecnologia, fertilizantes, máquinas e manejo. A produtividade diminui, a capacidade de enfrentar novos eventos climáticos também, e uma dificuldade inicialmente agrícola transforma-se rapidamente em um problema financeiro.

Essa realidade exige que o seguro rural deixe de ser tratado como um tema periférico nas políticas públicas voltadas ao agronegócio. Em um ambiente marcado por riscos climáticos crescentes, ele precisa ser reconhecido como um dos pilares da estabilidade econômica do setor.

O seguro rural, enquanto produto, está passando por uma série de transformações, inclusive com o avanço do chamado seguro paramétrico. Quanto maior for a área segurada, menor deverá ser o custo do seguro, em função de ganhos de escala, mas, principalmente, da diluição de risco. Até porque, devido as dimensões do Brasil, um evento climático raramente afetará todas as regiões agrícolas do país. Assim, tal como tem acontecido com o financiamento do setor, a tendência de médio e longo prazos é que a relevância do PSR se torne menor com o crescimento das áreas seguradas e a esperada redução dos prêmios. Mas, até que isso aconteça, o PSR é de importância estratégica para o Agro brasileiro.

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Proteger o produtor não significa apenas garantir uma indenização após uma perda. Significa preservar a produção, manter o acesso ao crédito, estimular investimentos, assegurar renda no campo e dar estabilidade a uma cadeia que responde por parcela significativa do PIB, das exportações e da geração de empregos no Brasil.

O futuro do agronegócio brasileiro não será definido apenas pela quantidade de recursos destinados ao financiamento da produção. Será determinado, sobretudo, pela capacidade de administrar riscos. E isso exige mais do que ampliar o seguro rural: exige garantir previsibilidade às políticas públicas que o sustentam. Sem estabilidade orçamentária, não há mercado segurador robusto. E sem seguro rural forte e previsível, fica mais vulnerável não apenas o produtor, mas uma das principais bases da economia nacional.

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